Médicos alertam para riscos do uso de Ozempic fora do tratamento da diabetes

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Médicos alertam para riscos do uso de Ozempic fora do tratamento da diabetes

Nos últimos anos, o Ozempic, um medicamento indicado para o tratamento da diabetes tipo 2, saiu do espaço clínico para ganhar destaque nas redes sociais. Tornou-se objeto de desejo pela sua capacidade de promover a perda de peso, sendo procurado por pessoas sem diagnóstico de diabetes. A tendência tem gerado preocupações entre profissionais de saúde, sobretudo devido ao risco de escassez do medicamento e ao impacto nos doentes diabéticos que dele dependem para controlar os níveis de glicose.


Jorge Dores, diretor do Serviço de Endocrinologia da Unidade Local de Saúde de Santo António, critica o uso do Ozempic por motivos estéticos, explicando que esta tendência resulta do desejo de perder peso rapidamente sem alterar o estilo de vida. O clínico lamenta que pessoas com diabetes, que realmente necessitam do medicamento, fiquem sem acesso, e alerta para a responsabilidade dos médicos que o prescrevem de forma indevida. “Admito que, pelo menos, 50% dos doentes não conseguem garantir uma caneta injetora por mês desde o início da prescrição”, sublinha.

Ozempic tem prescrição médica obrigatória

Sobre os riscos, o diretor serviço de Endocrinologia da ULS de Santo Antóniocalerta que o uso sem acompanhamento médico pode causar efeitos gastrointestinais, como náuseas e vómitos e possíveis reações na pele se a injeção não for bem aplicada. Segundo explica, até ao momento, não há provas de dependência ou efeitos graves a longo prazo, embora a experiência com o medicamento ainda seja limitada a poucos anos. Não existe automedicação no caso do Ozempic , já que o medicamento só pode ser obtido com receita. “Se as pessoas o tomam indevidamente é porque algum médico prescreveu e para além da prescrição indevida ficar na consciência de cada um, creio que neste momento decorrem ações aleatórias de fiscalização que poderão intimidar um pouco esta prática irregular”, afirma Jorge Dores.

Para os doentes com diabetes, como Sara Cunha, de 21 anos, estudante na Universidade Fernando Pessoa, o Ozempic “representa uma opção muito importante” de tratamento. “Muita gente que não tem diabetes começou a usar só para perder peso rápido e isso fez com que faltasse o medicamento para quem realmente precisa, como por exemplo eu”, lamenta.

Num estudo apresentado pela European Association for the Study of Diabetes é demonstrado que, ao longo de três anos, a semaglutida, substância ativa do Ozempic, melhorou consistentemente o controlo da glicose em adultos com diabetes tipo 2.

O uso do Ozempic no contexto dos padrões de beleza contemporâneos levanta várias questões, que vão da segurança à priorização dos cuidados de saúde. Para os doentes diabéticos, cuja dependência terapêutica pode ser vital, torna-se essencial que o sistema de saúde assegure uma monitorização adequada. Ao mesmo tempo, é indispensável que a sociedade reflita sobre os padrões estéticos que incentivam o uso de medicamentos para fins não originalmente previstos, e que os profissionais de saúde reforcem a importância da alimentação equilibrada, do exercício físico e do acompanhamento médico no tratamento da diabetes e da obesidade.