Portugal perdeu 10 mil bombeiros voluntários em duas décadas
- 19/11/2025
- #Social
Portugal perdeu cerca de 10 mil bombeiros voluntários desde 2004, e a profissão revela-se cada vez menos atrativa para os jovens. A corporação de São Mamede de Infesta é um dos exemplos do país que enfrenta este e outros desafios, numa altura em que o recrutamento e a renovação geracional se tornam questões centrais para a sobrevivência do voluntariado.
Com o surgimento de diversas oportunidades no mercado de trabalho, ser bombeiro voluntário tem despertado cada vez menos interesse. A dificuldade em conciliar o voluntariado com as exigências profissionais e pessoais é um dos principais entraves, a que se junta o baixo investimento do Estado na modernização dos equipamentos, das instalações dos quartéis e na revisão do modelo de funcionamento e da tabela remuneratória.
“Só querem saber de nós nas épocas de incêndio”, lamenta Rodrigo Mendes, segundo comandante dos Bombeiros Voluntários de São Mamede de Infesta.
Em entrevista, o responsável sublinha a falta de planeamento e de investimento do Estado em medidas de prevenção nas zonas mais afetadas pelos incêndios, bem como na substituição de equipamentos e viaturas obsoletas. “O governo gosta é de show off… de dizer que os bombeiros são incansáveis, que são a primeira força de proteção e a espinha dorsal da Proteção Civil. Mas o apoio efetivo só aparece quando o país está a arder”, critica.
Apesar disso, Rodrigo Mendes destaca o apoio e a solidariedade da Câmara Municipal de Matosinhos, que considera uma referência a nível nacional. O município criou uma Central de Emergência Municipal e Equipas de Intervenção Permanente, distribuídas pelos quatro quartéis do concelho, garantindo assim um socorro mais rápido e de proximidade.

Bombeira há 14 anos, Cátia Cunha, delegada distrital adjunta da Associação Portuguesa de Bombeiros Voluntários, reconhece que o panorama atual da profissão não é positivo. Critica a falta de remunerações adequadas e a ausência de reconhecimento do risco associado à atividade.
“Quando estamos fardados, não somos considerados uma profissão de risco. Só nos atribuem esse estatuto quando vamos adquirir um bem”, lamenta, referindo-se à forma como o reconhecimento é apenas burocrático, aplicado em processos como a compra de casa, automóvel ou pedidos de crédito bancário.
A dirigente sublinha ainda que não há progressos significativos, mesmo com o aumento dos efetivos profissionais e a criação das Equipas de Intervenção Permanente (EIP). “A evolução é muito lenta e ainda insuficiente. Não é correto dizer que a situação geral melhorou”, afirma.
Cátia Cunha considera que o Estado dá como garantida a resposta eficaz dos operacionais em situações críticas, sem atender aos problemas internos de cada corporação. Ainda assim, garante que os bombeiros voluntários não virarão costas ao país e continuarão a lutar por condições de trabalho e uma carreira digna.
Joao Pinto