Quando a luz é dos vizinhos: a cooperativa elétrica de Rebordosa que sobrevive ao oligopólio energético

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Quando a luz é dos vizinhos: a cooperativa elétrica de Rebordosa que sobrevive ao oligopólio energético

Num tempo em que a energia está concentrada nas mãos de poucos, um canto do Vale do Sousa continua a acender as luzes com eletricidade gerada pela comunidade. Criada em 1933, a Celer nasceu da vontade de iluminar Rebordosa e mantém, quase um século depois, o mesmo princípio: distribuir energia sem perdas, gerida localmente e ao serviço da comunidade.

Imagem 1 – Atual sede A CELER Cooperativa de Eletrificação de Rebordosa (fotografia de Adriano Santos Ribeiro)

Joaquim Neves encosta-se ao balcão da padaria e repete: “Nem que fosse mais barato”. Este sócio da Celer, a cooperativa elétrica de Rebordosa, não abdica do seu princípio. Mesmo com faturas mais baixas de outros fornecedores, ele fica com a Celer. Esta alimenta fornos, escolas, mercearias e uma cidade inteira, acostumada à luz local, feita por quem aqui vive. Hoje, serve cerca de 4600 clientes numa freguesia com mais de 10 mil habitantes.

Origens da Celer

Quando a Celer foi fundada, em 1933, Joaquim Neves tinha cinco anos. Viu Rebordosa passar de aldeia para vila e de vila para cidade. Muito antes de ter a padaria e opiniões sobre o mercado energético, a eletricidade chegou aqui, não como um serviço inevitável do Estado, ou de uma grande empresa, mas como uma aposta de dez pessoas que se uniram para criar uma cooperativa e garantir por conta própria um bem essencial.

Na altura, não havia rede estabelecida, nem alta tensão a correr pelo país como hoje. Ainda nas décadas seguintes, já perto do 25 de Abril de 1974, cerca de um terço da população portuguesa continuava a viver em casas sem energia elétrica. Para Rebordosa, ter uma cooperativa elétrica própria foi um luxo impulsionado pela necessidade coletiva de uma aldeia a querer modernizar-se e conquistar autonomia sobre a sua própria energia. Esta foi a forma de trazer a este canto um bem que, em grande parte do país, ainda ausentava.

Albano Silva, presidente da Celer, resume assim: “A missão era distribuir energia nos primórdios da eletricidade como necessidade. Não havia distribuição aqui. Dez pessoas juntaram-se para criar a cooperativa”. E hoje? “No fundo, a missão é a mesma: distribuir energia em boas condições, prestar bom serviço, evitar quebras”. Garantir que “a luz não falha no forno, no motor da marcenaria ou no letreiro da papelaria”.

Na defesa da soberania energética
Ao redor desta pequena cooperativa, Portugal modernizou-se, liberalizou o mercado e redesenhou o sistema elétrico. Hoje, a Celer vive integrada num sistema elétrico nacional onde a alta e média tensões são monopólio natural da E‑Redes, empresa do grupo EDP, e onde o consumidor pode escolher entre dezenas de comercializadoras. A cooperativa depende fisicamente da rede dos seus concorrentes. Compra energia que chega pelos mesmos cabos que alimentam as grandes empresas do setor, para depois transforma-la e distribuir em baixa tensão, porta a porta, poste a poste, numa espécie de circuito curto que devolve ao território parte do controlo sobre a forma como a energia circula. São 49 postos de transformação espalhados por Rebordosa, como ameias de um castelo.​

Imagem 2 – Primeiro Posto de Transformação A Celer (fotografia de Adriano Santos Ribeiro)

A “ilha energética” das respostas rápidas
Entretanto, o resto do país debate a lentidão das novas ligações elétricas. Numa edição de dezembro de 2025 do Jornal de Notícias, engenheiros e empresas de construção falam de meses de espera por pontos de ligação, obras paradas e custos a subir porque a E‑Redes não acompanha o ritmo dos pedidos. A burocracia, a complexidade técnica dos projetos e o volume crescente de processos são apontados como causas de um sistema que atrasa habitações, fábricas e investimentos inteiros.

Em Rebordosa é diferente. A promessa de rapidez vive do trabalho dos técnicos de rede. Numa manhã de manutenções, Luís Silva explica a diferença em rigor. “Na E-Redes, quem faz uma ligação pode nunca mais voltar ao mesmo sítio.” Aqui, se fizer asneira, sabe que no dia seguinte encontra o cliente no café.

Imagem 3 – Hugo e Luís verificam perdas de energia (fotografia de Adriano Santos Ribeiro)

Hugo Ferreira, com 15 anos na casa, diz: “Aqui toda a gente se conhece. Somos mais eficazes”. Ligações em dias, não meses. Avarias como urgências de vizinhos.

Fidelidade dos cooperadores
É neste contexto que a frase de Joaquim ganha peso. Quando a lei permitiu que os consumidores deixassem de ser obrigatoriamente clientes da cooperativa, muitos comerciais bateram à porta da padaria com promessas de poupanças e aparelhos “milagrosos” que supostamente baixavam a fatura. Joaquim ouviu, abanou a cabeça e pediu que levassem o equipamento embora. Não queria trocar uma relação construída ao longo de décadas por um contrato mais barato, mas oco de sentido.

Imagem 4 – Joaquim na sua padaria (fotografia de Adriano Santos Ribeiro)

O que está em causa ali não é apenas preço, mas uma ideia de pertença e independência. Para Joaquim, a Celer é um projeto em que participa como sócio, não apenas um fornecedor distante. Deseja que a cooperativa “cresça”. Fala tanto da saúde financeira da empresa como da continuidade de uma comunidade que aprendeu a reconhecer-se nos postes e nos fios que ela distribuiu.

Nem todos partilham o mesmo entusiasmo. Osvaldo Dias, papeleiro, faz contas ao balcão: paga mais na loja aqui do que em casa no concelho vizinho. “A luz sai-me cara”.

Mas os números dizem outra coisa. A Celer iguala ou bate o mercado regulado. Poupanças face à EDP Comercial (ERSE): 6,79 euros na tarifa simples (417 kWh), 10,26 euros na bi-horária, 17,30 euros na tri-horária otimizada. Como explica o presidente da cooperativa de Rebordosa: “Vendemos ao preço regulado ou abaixo, com serviço que resolve problemas quase no imediato”.

A tensão entre preço e proximidade é uma espécie de linha de alta tensão invisível que atravessa toda a freguesia. A cooperativa tem conseguido praticar valores iguais ou inferiores ao mercado regulado, mas as margens estreitam-se e a percepção de justiça tarifária nem sempre acompanha as tabelas oficiais ou as simulações em portais regulatórios. No comércio, onde cada euro pesa na conta, a fidelidade é negociada com calculadora.

Na mercearia de Luísa Silva, a conversa é outra. Mais de trinta anos de trabalho em Rebordosa e um historial de cliente “sempre” fiel à cooperativa. “Fui sempre cliente e nunca tive problemas. Serviço exímio”.

Imagem 5 – Luísa na sua mercearia (fotografia de Adriano Santos Ribeiro)

A importância desta normalidade elétrica raramente aparece nas estatísticas sobre consumo em baixa tensão. No entanto, para pequenas lojas como a de Luísa, um corte de luz não é apenas um incómodo, é um risco de perder trabalho, prazos e clientes.

A cooperativa, ao manter uma rede densa de postos de transformação, com uma infraestrutura moderna e uma equipa disponível para caçar perdas de energia, assume precisamente essa responsabilidade sagrada com os seus cooperantes. “Ilhas energéticas” como a Celer estão concentradas em reduzir ao mínimo as perdas na rede. Quanto menos energia perde, mais conseguem vender e menor é o desperdício num sistema que se quer cada vez mais sustentável.

Arquipélago das cooperativas
A Celer não é uma exceção solitária. Em Portugal, há um pequeno arquipélago de cooperativas elétricas concentradas sobretudo no norte do país, sobreviventes de um tempo em que o Estado e as grandes empresas não chegavam a todo o lado. Estas onze cooperativas servem 30 mil clientes, um nicho num mercado dominado por operadores nacionais.

Imagem 6 – Mapa das cooperativas eléctricas em Portugal

Pareceres da Autoridade da Concorrência e respostas das próprias cooperativas à ERSE mostram que este pequeno arquipélago elétrico não é excentricidade local. É uma peça que resiste num tabuleiro dominado por um grande operador nacional. Estas cooperativas batem a média em qualidade de serviço. Reinvestem lucros em redes densas e com menos perdas. Servem de modelo para distribuição descentralizada e produção renovável num mercado quase monopolista. Para reguladores, são laboratórios vivos de soberania energética local.

A liberalização trouxe concorrência direta na mesma área. Empresas oferecem bundling: pacotes com eletricidade, gás, TV e pontos de fidelidade. Campanhas porta a porta. “É estratégia de marketing e volume das grandes, que vendem mais serviços. Nós só temos eletricidade”, reitera o presidente da Celer. Ainda assim, as cooperativas mantêm o estatuto de vizinho. Uma vantagem simbólica difícil de copiar.

Imagem 7 – fachada da primeira sede da cooperativa (fotografia de Adriano Santos Ribeiro)

A lista de entidades apoiadas retrata Rebordosa. Coletivos desportivos, associações culturais, iniciativas religiosas. Bombeiros em destaque, essenciais numa terra de estradas, linhas de alta tensão, incêndios e acidentes. O dinheiro da cooperativa não fica nas contas. Reaparece em equipamentos, atividades e eventos do dia a dia.

O presente e o futuro da Celer
A cooperativa planeia dois postos novos. Um para o pavilhão multiusos em Azevido. Outro para pavilhões industriais na Serrinha, do grupo LasKasas. Expansão a pedido de clientes que usam a rede. Nos pavilhões, o proprietário procurou a Celer. Expôs necessidades. Resultado: um posto de transformação no local. Garante potência e eficiência à rede.

O futuro projetado na sala da administração inclui painéis solares, contratos de energia “cem por cento limpa” e baterias para falhas na rede nacional. A cooperativa já produz parte das necessidades com unidades fotovoltaicas próprias e compra o restante renovável. Assim conciliam sustentabilidade económica e ambiental.

Imagem 8 – Parque Fotovoltaico da Celer (fotografia de Adriano Santos Ribeiro)

O discurso das “ilhas energéticas” aproxima-se do que a Celer sempre foi. Partilhar energia, reforçar laços locais e descentralizar produção renovável. Está na agenda política, nas diretivas europeias e nos pareceres regulatórios. Em Rebordosa, pratica-se desde os anos trinta.

O que fica quando a conta chega
No fim do mês, chega a fatura . Para alguns, como Joaquim, essa fatura é o preço de manter viva uma instituição que associam à transformação da terra onde cresceram, à passagem de um tempo de escuridão física e social para um quotidiano iluminado. Para outros, como Osvaldo, é um documento frio que compara com o valor pago noutro concelho, prova de que a eletricidade, mesmo quando vem da cooperativa, não escapa à lógica do negócio.

A Celer vive neste intervalo. É simultaneamente uma empresa, vizinha, motivo de orgulho e alvo de queixa. O que a mantém de pé, por agora, é a combinação entre uma rede moderna, um serviço rápido num território pequeno e uma ideia persistente de comunidade e de energia partilhada que faz com que alguém como Joaquim repita, sem hesitar, que não muda “nem que fosse mais barato”.

Disclaimer: o autor deste trabalho é neto de Adriano Ribeiro de Barros, antigo presidente da Celer.