A insolvência do Boavista FC e o futuro das modalidades desportivas
- 25/03/2026
- Desporto Jornalismo
O Boavista Futebol Clube é uma das instituições mais tradicionais do futebol português, com sede na cidade do Porto. Devido aos impactos da insolvência do clube, em julho de 2025, várias modalidades dentro do clube estão a ser esquecidas. Adeptos, atletas, professoras e alunos de várias modalidades deste clube histórico vivem cenário de incerteza.

Atletas da equipa GymnaestradaQuando entramos pela ala dos adeptos, na zona sul, do complexo desportivo do Boavista Futebol Clube (BFC), na cidade do Porto, numa tarde de novembro de 2025, passamos por portas transparentes que nos conduzem a uma escadaria com paredes brancas decoradas com vários desenhos alusivos aos atletas de ginástica. Desce-se a escadaria, passa-se a receção e deparamo-nos com o corredor principal que nos conduz às salas dos treinos de ginástica rítmica e artística. Naquele momento, é possível escutar as treinadoras a falar com as atletas sobre a coreografia que vão executar nas competições nacionais. Mal se entra na sala, há música e passos das atletas entre os 3 e os 88 anos. Para já, os treinos continuam. Mas o o futuro desta e outras modalidades neste clube permanece incerto e em vias de desaparecer.
Os problemas financeiros do Boavista Futebol Clube, na cidade de Porto, começaram a ser noticiados em 2023. Dois anos depois, este clube histórico da invicta entrava em processo de insolvência, deixando à deriva quase 250,000 mil adeptos, atletas e professores de várias modalidades. Até então, além dos jogos de futebol, que reuniam uma grande massa de apoiantes, o clube mantinha várias modalidades ativas, como por exemplo, a ginástica artística e rítmica, o voleibol, o jiu jitsu, o kickboxing, o boxe, karaté, ciclismo, esgrima, Taekwondo, e o próprio futebol. Este universo abrange cerca de 1500 atletas, 30 modalidades e uma centena de professores.
De acordo com o relatório de contas da SAD do Boavista Futebol Clube, (2023-2024), esta coletividade desportiva obteve uma receita de 4.424.268 milhões de euros em bilheteira patrocínios e merchandising, que têm a capacidade de sustentar outras secções do clube. Se o Boavista está em insolvência, esses valores tendem a cair, isto é, menos patrocínios e menos investimento.

Segundo Isabel Barreira, professora de ginástica artística há mais de duas décadas no BFC, “a insolvência da SAD, as dívidas do clube, afetam diretamente todos”. Depois, “para além de perder as infraestruturas, não se pode pagar aos funcionários e treinadores, que são os principais agentes das atividades amadoras.” Na semana de 10 a 14 de Novembro de 2025, o Boavista fechou as portas às turmas de ginástica sem data para reabrir, devido aos cortes de luz e água, impedindo o funcionamento das aulas. Uma semana depois, tudo parecia, então, voltar à normalidade.
A crise do Boavista traz “má reputação”, desabafam os alunos, comprometendo o apoio dos patrocinadores para modalidades mais “pequenas”, nomeadamente a ginástica. Muitas marcas podem ficar de pé atrás, não querendo associar-se a um clube em risco financeiro. “O apoio é muito, muito, muito pequeno na atual situação financeira do clube”, acrescenta Isabel.

Professora Isabel durante uma aulaSe há riscos para a sustentabilidade do futebol profissional, isso pode afetar a marca Boavista no seu conjunto, prejudicando a atratividade das outras modalidades para atletas, treinadores e parceiros. “É triste saber que tantos atletas perderam as condições e espaços para treinar”, afirma Alex Marques, 20 anos, ex-jogador da equipa principal do BFC. “Atletas que talvez só conheciam a realidade do Boavista e que agora vão ter que procurar uma instituição diferente para continuarem o seu caminho como desportistas”, acrescenta enquanto conta sobre a sua história no clube. “A nível profissional, não digo que temi pelo meu futuro, mas sim mais pelo futuro do clube, pois foi um clube onde eu passei os meus últimos cinco anos e que vem daí um carinho”. Para ele, a ligação ao Boavista começou através de uma ligação telefónica. “Na altura, estava no Leixões, e nessa época eu estava a fazer um campeonato, então recebi essa chamada a perguntar se era possível integrar a equipa do Sub-16 na época seguinte e eu aceitei”. Alex foi até o estádio Bessa, assinou os papéis e integrou essa equipa.

Muitos dos entrevistados partilham a mesma opinião, expressando que a liquidação do clube poderá significar o fim da SAD e, possivelmente, o do clube enquanto estrutura profissional.
Para atletas nas modalidades menos profissionais, pode haver atraso no pagamento de subsídios, bolsas ou apoios. Técnicos podem sair ou recusar-se a ficar se não virem um futuro claro, ou financiamento sustentado para os projetos das modalidades. As modalidades como a ginástica e o voleibol têm equipas que podem ficar sem treinar e os atletas podem acabar por mudar de clubes. Alex foi um desses atletas que acabou por abandonar o Boavista e encontra-se de momento sem um clube onde jogar.
O FUTURO DO BOAVISTA
A assembleia de credores aprovou a liquidação, segundo a própria direção do Boavista. Neste caso, se o clube for liquidado, isso pode significar o fim ou a redução muito drástica de várias secções desportivas. Já há exemplos de iniciativas paralelas como por exemplo, a claque Panteras Negras FC. Isso mostra que atletas, sócios e patrocinadores podem migrar para essas novas entidades, diminuindo ainda mais os recursos e a relevância das modalidades sob o Boavista tradicional.
Sentada nas bancadas, Diogo Filipe, 25 anos, um adepto leal das panteras, está descontente pela perda do património do Boavista. “Foi algo que me entristeceu, o facto do clube sair das competições profissionais e a forma como isto tudo está a acontecer neste momento no clube”, desabafa. “A direção não tem aparecido para dar a cara. Foi às eleições com coisas prometidas e agora não, não está a acontecer e ninguém dá a cara. Não tem sido suficiente a comunicação com os adeptos.”
Segundo explicita Diogo, que comparece às reuniões entre sócios e direção, foram feitas promessas pelos novos investidores que ainda não foram cumpridas. “O grupo de investidores que cá veio e que foi aprovado por sócios, dizem uma coisa e acabamos por descobrir que nada foi feito ou que foi feito o oposto”. Nos relatórios observamos também que o Boavista está neste momento a dever mais de 20 milhões de euros ao Estado e outras dívidas a jogadores, totalizando cerca de 8,5 milhões de euros para poder inscrever jogadores.
A gestão da SAD é apontada como a principal causadora da derrocada, a dívida à construtora do estádio. O clube alega que “não foi envolvido” nos processos de salvamento financeiro da SAD, e que a separação institucional entre Clube e SAD está a agravar o problema.
Segundo a direção, alguns deles preferem a venda do património imobiliário do clube em vez de um plano de recuperação que envolva pagar a todos. “Atualmente, é muito difícil será pedir a sócios que sustentem ou que apoiem e que esse valor realmente consiga chegar a algo que seja alcançável para curar as dívidas do clube e da sociedade,” conta José Bastos contabilista e aluno da equipa Gymnaestrada, turma que intrega alunos dos 18 aos 97 anos em ginástica artística.
Mesmo com recursos, sem investidores, será quase impossível retomar atividade competitiva, há dívidas elevadas, património reduzido, e má reputação estrutural, esclarece José.
Existe risco de desaparecimento das equipas profissionais, o que implica que o clube deixaria de competir nos escalões nacionais.

Dona Gina, aluna de ginástica Madalena Lages, aluna desde os seis anos da ginástica rítmica no Boavista, atualmente professora no clube, foi campeã nacional nas primeiras competições em que a equipa participou. “Neste momento, houve uma grande alteração na ginástica rítmica, toda a equipa técnica e de ginastas está alterada, estamos a começar um trabalho diferente, com outras meninas que nunca fizeram competições, estamos a criar uma nova identidade para o clube” explica a ex-ginasta.
Nas últimas semanas de Fevereiro, a direção do BFC foi afastada das funções de gestão pela administradora de insolvência devido a falhas no cumprimento de obrigações financeiras. O clube esteve quase a encerrar, mas evitou esse acontecimento após um donativo que ronda os 54 mil euros feito por Gérard López, que permitiu pagar despesas essenciais como a luz e a água. Apesar de continuar em funcionamento, a situação financeira é crítica: o Boavista tem dívidas na ordem dos 150 milhões de euros, e já começaram a ser vendidos ativos do clube para pagar aos credores.