José Castro Carneiro e o “não-livro” que desafia a memória do 25 de Novembro

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José Castro Carneiro e o “não-livro” que desafia a memória do 25 de Novembro

Com os 50 anos do 25 de Novembro a aproximarem-se, o Capitão de Abril José Castro Carneiro lança “Encontro com a minha História”, um livro que convida a repensar a memória coletiva do percurso da Revolução.

O livro cruza memória pessoal e investigação documental para refletir sobre o percurso da Revolução e as suas consequências. O próprio autor explica: “O resultado é daquilo que vivi, mas também das leituras que fiz, daquilo que fui aprendendo”. A obra, que se distancia da investigação formal e da autobiografia, é uma cuidadosa compilação de textos variados, entrelaçados com relatos e considerações pessoais que sublinham a visão do autor.


José Adelino Castro Carneiro define o livro, apresentado em outubro no Museu Militar do Porto, como um “não-livro”. Mais do que uma autobiografia, é uma compilação histórica construída a partir das suas experiências e leituras, que o autor define como “um testamento para os meus filhos e netos”. O volume distingue-se pelo vasto acervo documental que reúne cartas de Salgueiro Maia, comunicações entre Kissinger e Carlucci e depoimentos de membros do MDLP.

A obra acaba por apoiar-se num arquivo pessoal com mais de 14 mil fichas de leitura.
Um “Capitão Moderno”, o militar aproveita estas páginas para esclarecer episódios e corrigir interpretações. Recorda, por exemplo, que não comandou as operações no Porto. “Eu era o moço dos recados”, ironiza.

Como uns dos oficiais mais jovens e tecnologicamente habilitados das operações no Porto, desempenhou missões sensíveis e essenciais. “Devido à distância e às diferenças regionais, as ações no Norte decorreram por nossa conta e risco, embora dependessem do desenrolar dos acontecimentos na capital”, recorda o autor.

Castro Carneiro no seu escritório, fotografia de Adriano Ribeiro (29/10/2025)


O 25 de Novembro de 1975 é uma das peças fundamentais do livro. O autor considera-o o momento de viragem que levou à desvalorização dos militares e denuncia um processo de “desinformação” que, afirma, “pôs os militares de rastos”. Critica ainda a decisão da Assembleia da República de institucionalizar as comemorações da data, apontando a mudança de posição de Ramalho Eanes como um sinal de incoerência histórica.


“Encontro com a minha História” surge, assim, como o legado de uma vida ligada à Causa de Abril e uma oportunidade para revisitar a memória do período revolucionário português. Ao cruzar vivências individuais com arquivos e correspondência oficial, Castro Carneiro convida o leitor a refletir sobre a forma como a Revolução e os seus protagonistas foram lembrados ao longo das décadas, destacando tensões, equívocos e decisões políticas que moldaram a interpretação pública desses acontecimentos.

O livro, segundo Castro Carneiro, visa mostrar ao povo português o que foi o pós-25 de novembro. Assim, mais do que um relato pessoal, a obra funciona como um ponto de referência crucial para compreender a complexidade da transição portuguesa para a democracia e sublinha a importância de preservar os registos históricos desse período fundamental para o país.

Com 227 páginas e um custo de 15 euros, “Encontro com a minha História” pode ser adquirido na UNICEPE, Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, na Praça Carlos Alberto, no Porto.