Cobertura Jornalística de Tragédias em Portugal
- 15/06/2020
- Jornalismo de Investigação
Pedrogão Grande: o bom, o mau e o obscuro do jornalismo
Andreia Araújo
Existem histórias que ficam marcadas nas carreiras dos jornalistas e que marcam, igualmente, as mesmas. Por vezes, “o calor do momento” pode traçar o destino e a vida de milhares de pessoas, estando os jornalistas claramente envolvidos no meio. Marcados pelo bom, pelo mau e também pelo obscuro – uma espécie de paradoxo com a vida.
O incêndio florestal de Pedrógão Grande deflagrou a 17 de junho de 2017, no concelho de Pedrógão Grande, no distrito de Leiria, tendo alastrado aos concelhos vizinhos de Castanheira de Pera, Figueiró dos Vinhos e Ansião, ao concelho da Sertã (distrito de Castelo Branco) e aos concelhos de Pampilhosa da Serra e de Penela (distrito de Coimbra). No mesmo dia deflagrou outro incêndio de grandes proporções no concelho de Góis, distrito de Coimbra, que acabou por alastrar aos concelhos de Pampilhosa da Serra e de Arganil. No dia 20 de Junho de 2017 uma das frentes de fogo do incêndio de Pedrógão Grande juntou-se ao incêndio de Góis.
O desastre é o maior incêndio florestal de sempre em Portugal e o mais mortífero da história do país. O balanço oficial contabilizou 66 mortos (65 civis e um bombeiro voluntário de Castanheira de Pera) e 254 feridos.
Em termos de prejuízos materiais, foram contabilizadas mais de 500 habitações parcial ou totalmente destruídas pelo fogo. Foram também afetadas 48 empresas com 372 postos de trabalho. A estimativa provisória do montante total de prejuízos ascende a 500 milhões de euros.
No rescaldo do incêndio, a causa apontada pelas autoridades partiu da trovoada seca que, conjugada com temperaturas muito elevadas e vento intenso, fez propagar rapidamente o fogo. No entanto, a história parecia não bater certo e o presidente da Liga dos Bombeiros, Jaime Marta Soares, acreditava que o incêndio não teve origem em causas naturais. Um relatório técnico independente publicado em outubro aponta como causa da ignição o contacto entre a vegetação e uma linha elétrica da empresa Energias de Portugal.
Mais de metade da região do Pinhal Interior Norte, que abrange Pedrógão Grande, estava ocupada por plantações de eucaliptos e de pinheiro-bravo.
No dia 20 de junho, uma das frentes ativas do incêndio de Pedrógão Grande convergiu com a frente do incêndio de Góis e formou uma frente de fogo única com 58 km de extensão, o que levou à evacuação de 27 aldeias.

No dia 21 de Junho o incêndio de Pedrogão Grande foi dado como dominado, tendo vindo a ser declarado como extinto no dia 24 de junho. O incêndio de Góis foi dominado no dia 22 de Junho e declarado como extinto no dia 24 de Junho. Ambos os incêndios, com múltiplas frentes que alastraram a diversos concelhos, lavraram durante uma semana.
O primeiro-ministro António Costa chamou o desastre de “a maior tragédia dos últimos anos em relação a incêndios florestais”, enquanto o Conselho de Ministros decretou três dias de luto nacional. Consternado e abatido, o presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, chegou a Pedrógão Grande na noite 17 de junho e encontrou-se com sobreviventes que foram evacuados para Leiria. Mais de 1700 bombeiros foram deslocados para combater os incêndios em todo o país e, desses mais de 1700, 800 foram alocados para Pedrógão Grande. Muitas pessoas foram evacuadas. O fumo impediu que os helicópteros pudessem oferecer apoio e isso prejudicou o combate ao incêndio. Alguns sobreviventes criticaram a resposta do Governo, alegando que não teriam sido ajudados por nenhum bombeiro, horas depois de o incêndio ter começado.
Inúmeras foram as reportagens, notícias, artigos e investigações que foram realizadas sobre este tema, não se tratasse de uma das maiores tragédias nacionais dos últimos anos. Incontáveis diretos que fizeram com que cada jornalista, por vezes, desafiasse a própria vida, em conjunto com as populações dos distritos afetados pelos incêndios. A recolha de testemunhos que emocionaram o país. A coragem de cada repórter em contar todas essas histórias e em mostrar as imagens arrepiantes deste enorme desastre. Todos os canais informativos nacionais e jornais, quer impressos quer digitais, mencionaram este assunto, e seria impossível não o fazer.
Por entre chamas e cinzas, gritos e lágrimas, sangue e suor, entre mortos e feridos, muitos foram os jornalistas e repórteres que ousaram e arriscaram no seu trabalho e a sua vida. Ou melhor, o panorama caótico pintado em Pedrógão Grande era o palco para grandes audiências e vários foram os meios de comunicação social a cobrirem a presente tragédia de forma sensacionalista.
Os jornalistas dão voz àqueles que em choque ou apáticos, em pânico e apavorados, vêm entes queridos a partirem e as suas casas reduzidas a meros escombros. No momento, e apanhados no meio do caos, muitos falam sem consciência das suas palavras, sem medir as consequências das mesmas. A cabeça está tão quente quanto as temperaturas que o incêndio trazia. A emoção e o coração prevaleciam em vez da sanidade e da razão, mas nada mais se podiam esperar perante um cenário infernal como aquele que se viveu. O jornalista tem o dever de entender e antecipar um possível impacto negativo que as intervenções, testemunhos e afins poderão vir a ter caso estes acabem por se mediatizar.
A divulgação de panoramas, como aqueles que se puderam presenciar no verão do grande incêndio em Pedrogão Grande, é sempre analisada mais tarde e com uma outra perspetiva, onde são demonstrados pontos sensíveis que, num direto ou na hora da reportagem, não eram visíveis, mas os diretos são arriscados por essa mesma razão.
O direto pode ser considerado como um dos meios mais poderosos que a televisão e os meios de comunicação da mesma podem ter. Mas, para além de poderosos e desafiantes, também podem ser perigosos, principalmente num cenário como o plantado em Pedrogão Grande.

Exemplo disso foi o que aconteceu com Judite de Sousa. A 18 de junho de 2017, durante a cronologia de atividade do incêndio, uma das mais reconhecidas e fundamentais jornalistas da TVI fez um direto que causou polémica nas redes sociais e no mundo do jornalismo.
“Está um corpo aqui ao meu lado, de uma senhora, que ainda não foi recolhido, apesar de os bombeiros se encontrarem muito perto deste local.”
Judite de Sousa, no direto de 18 de junho
A pivot do canal generalista, no direto, apareceu no meio de um floresta totalmente queimada e reduzida a cinzas junto de…um corpo de alguém queimado e coberto por um lençol. Mesmo estando colocada à frente da fita de segurança colocada pela Polícia de Segurança Pública, Judite conseguiu tornar visível o cadáver coberto por um manto branco atrás de si.
Como consequência dos acontecimentos, a Entidade Reguladora para a Comunicação Social lançou uma posição e emitiu um comunicado, a 19 de junho – dia posterior ao da emissão do direto-, que pode ser encontrado e lido no seu website.
“O Conselho Regulador da ERC decidiu, esta manhã, abrir um procedimento de averiguações a uma reportagem emitida, na edição de ontem, do Jornal das 8 da TVI, sobre os incêndios em Pedrogão Grande.
Entretanto chegaram à ERC mais de 100 participações que contestam o plano televisivo em que aparece um dos cadáveres da tragédia, na referida reportagem.
A ERC, consciente do estado de choque em que o País se encontra, sintoniza-se com a sociedade portuguesa e espera que a comunicação social seja de uma sensibilidade profissional a toda a prova, neste momento de luto nacional.”
Tomada de posição da Entidade Reguladora para a Comunicação Social, a 19 de junho
Não se trata de uma infelicidade, trata-se de um infringimento claro do Código Deontológico dos Jornalistas, nomeadamente dos pontos número dois (“O jornalista deve combater a censura e o sensacionalismo e considerar a acusação sem provas e o plágio como graves faltas profissionais.”) e número seis (“O jornalista deve recusar as práticas jornalísticas que violentem a sua consciência.”), mas também da moral e ética na convivência numa sociedade pois, será considerado de senso comum, que é totalmente inadmissível a exibição de um cadáver em televisão nacional, seja em que circunstância for.
Também a Lei da Televisão refere, no número um do artigo 27, que “a programação dos serviços de programas televisivos e dos serviços audiovisuais a pedido deve respeitar a dignidade da pessoa humana e os direitos, liberdades e garantias fundamentais” e, o número dois do artigo 34 indica que todos os operadores de televisão têm obrigação de, em programas televisivos generalistas de cobertura nacional, assegurar “a difusão de uma informação que respeite o pluralismo, o rigor e a isenção”. Uma das deliberações adotadas pelo Conselho Regulador da ERC, numa reunião a 29 de agosto de 2017, ponderou e publicou no seu website que “na sequência de procedimento oficioso e participações contra o serviço de programas TVI, propriedade da TVI – Televisão Independente, S.A., relativos à reportagem emitida na edição de 18 de junho de 2017 do ‘Jornal das 8’, sobre os incêndios em Pedrógão Grande, verificou-se a violação […] da Lei da Televisão, não respeitando a dignidade da pessoa humana, a ética de antena que lhe cumpre observar e que àquela se associa, bem como o dever de rigor informativo”.
O Sindicato de Jornalistas também reagiu ao infortúnio, mas não mencionou o mesmo diretamente nos comunicados que lançou. A 21 de junho, dois dias depois do mediático direto de Judite de Sousa, o Sindicato de Jornalistas emitiu uma nota intitulada “SJ aconselha cobertura noticiosa sóbria dos trágicos incêndios”, para relembrar a necessidade do cumprimento rigoroso que dever ter relativamente ao Código Deontológico dos Jornalistas. O Sindicato relembrou também os pontos número sete e número nove do Código que referem a necessidade de “atender às condições de serenidade, liberdade e responsabilidade das pessoas envolvidas” nos acontecimentos que relatam e de “[não] perturbar a sua dor”, acabando por relacionar os mesmos com o ponto número dois supracitado.
Já dia 25 de junho, o Sindicato de Jornalistas lançou um novo comunicado intitulado “CDSJ condena casos de exposição excessiva de dor nos incêndios de Pedrógão Grande e de Góis. Nesta tomada de posição o Conselho Deontológico do Sindicato dos Jornalistas assumiu que “não pode deixar de condenar, de forma veemente, situações em que houve exposição excessiva de dor das vítimas e outros excessos de sensacionalismo, de que são exemplos a exposição de cadáveres e as entrevistas com pessoas em estado de descontrolo emocional” e também mencionou que “alerta as direções de informação e as editorias dos órgãos de comunicação social para a sua particular responsabilidade jornalística e social no desempenho das suas funções. Daí que devem estar especialmente atentos quando coordenam ou editam reportagens e emissões em direto ou em diferido em que os jornalistas dos seus órgãos de comunicação social estão a trabalhar em contexto de pressão emocional que pode afetar o seu distanciamento dos factos”.

A Entidade Reguladora para a Comunicação Social considerou que o direto de Judite de Sousa emitido na TVI sobre o incêndio de Pedrógão Grande, na qual apareceu um cadáver de uma das vítimas, “não respeitou a dignidade humana” nem “o dever de rigor informativo”.
Tal como já referido, incontáveis foram o número de diretos e reportagens elaborados pelos vários órgãos de comunicação social, mas nada comparado ao que aconteceu com o direto de Judite de Sousa, para a TVI, naquele dia 18 de junho.
Falamos da comparação inicial. Falamos do bom, do mau e do obscuro retratado na prática do jornalismo nesta questão tão árdua.
Cobrir tragédias deste paradigma é difícil para qualquer jornalista, quer seja novo na área ou já “faça parte da mobília” da casa do jornalismo. Muitos optaram por fazer reportagens e diretos sobre as labaredas que se estendiam por todo aquele território. Outros jornalistas optaram por contar as histórias dos sobreviventes, das vítimas ou de qualquer transeunte que testemunhou todo aquele aparato e sentiu toda aquela aflição e ansiedade. Esse foi o lado bom do jornalismo, o que o tornou humano. Esse contar de histórias que levou muitos espectadores a despertar o lado sentimental e a levantar a ideia do “Ainda bem que não comigo, mas…”. O “mas” que não consegue atrair mais palavras dado o cenário caótico que milhões viram enquanto outras centenas o viveram e presenciaram.
O lado bom facilmente se pode tornar igualmente mau, pois existe uma linha bastante ténue entre estes dois graus. O maior objetivo de um jornalista em toda e qualquer questão, principalmente em cenários destes, é passar a mensagem clara e o mais transparente possível a um espectador ou leitor. Mas existe um fator, a par de outros, que pode alterar uma reportagem inteira e, até mesmo, “arruinar” tudo. Esse fator é a sensibilidade do espectador ou leitor. Em casos como o incêndio de Pedrogão Grande, a linha entre o bom e o mau, agregando-se ao fator de sensibilidade, ainda mais ténue se torna. Falamos da captação de imagens de grandes chamas ao longo de um vasto território, o que para muitos pode levantar um sentimento de ansiedade apesar de ser passa uma imagem “transparente” sobre a situação. A obtenção de testemunhos também pode ser desconfortável, tanto para as fontes como para os recetores da informação. Por vezes, palavras ditas no calor do momento podem ser prejudiciais para a vida de quem as pronunciou e, muitas vezes, podem ferir a suscetibilidade de alguns espectadores.
O obscuro de jornalismo é o exemplo do direto de Judite de Sousa. Não falamos de testemunhos, nem de fontes, falamos de uma má escolha de posição e de captação de imagem. Aqui, não foi só a jornalista a errar, foi também o repórter de imagem que também foi cúmplice e pensou que seria bom passar algo assim em plena televisão nacional. Atrás de Judite estava um cadáver de uma vítima do incêndio. A partir do momento em que o espectador tem a perceção dessa imagem, toda e qualquer palavra dita pela jornalista durante a sua intervenção é nula. A exibição de um cenário como esse ultrapassa todo e qualquer limite do bom senso. Falta de ética, não só na e para com a profissão digna que é o exercício de jornalismo, como a nível pessoal para a jornalista, quem transmitiu a imagem e quem aceitou passar algo assim durante a emissão. Aqui, o jornalismo deixou de ser jornalismo, pois, a partir do momento em que se opta pelo sensacionalismo para ter um retorno de audiências e nada mais que isso, o jornalismo e aquilo que é, por definição, a investigação e análise de informações para a produção e distribuição de relatórios sobre diversas situações que podem afetar a sociedade alguma forma, deixam de existir.
Imensos foram os artigos de opinião, as opiniões e crónicas que surgiram nos vários órgãos de comunicação social sobre a atitude e posição tomada pela TVI e por Judite de Sousa, muitos deles de forma indireta, não mencionando o tema, e as opiniões não divergem do tema central que é o denegrir da imagem da prática de jornalismo.
Dos jornais nacionais aos ciberjornais locais, este assunto foi explorado de imensas formas. Num dos seus artigos de opinião, Miguel Pinheiro, diretor executivo d’Observador, refere que “A obrigação de um jornalista é mostrar aquilo que vê – mesmo aquilo que às vezes outros preferiam que não víssemos ou aquilo que nós próprios, em certas alturas, preferíamos não ver”, no entanto questiona, como titulo do artigo, se o jornalistas são abutres. Respondeu negativamente a essa mesma questão depois de uma grande reflexão sobre aquilo que é o jornalismo e o ser jornalista.
“Quando todos os nossos instintos nos dizem para nos afastarmos de uma situação de perigo (seja um terrorista que mata ou um incêndio que se propaga), os jornalistas têm que ter a coragem de fazer o contrário.”
Miguel Pinheiro – diretor executivo d’Observador
Ser jornalista e ter o prazer de exercer o puro jornalismo, segundo Miguel Pinheiro e apesar de poder ser considerada uma verdade universal, não é estender um microfone, ouvir alguém numa conferência de imprensa e tomar notas. “Ser jornalista é acordar de manhã e não saber onde se vai estar à noite – ou como se vai estar à noite”. Porque este tipo de trabalho muda as pessoas e as suas perceções de vida, porque é um profissão, como muitas outras, onde também se correm imensos riscos.
“Alguém acha que um jornalista regressa a mesma pessoa de um sítio como Pedrógão Grande?”
Miguel Pinheiro – diretor executivo d’Observador
Com outra visão, a jornalista Estrela Serrano do Jornal Tornado, assume que, depois do incêndio de Pedrogão, o jornalismo também saiu chamuscado da tragédia. No entanto assume que o jornalismo não “ardeu” completamente devido ao muito bom jornalismo em reportagens e em imagens marcantes fizeram com que o público sentisse a dor e o desespero dos que perderam tudo. Uma das questões que levam Estrela a dizer que o jornalismo saiu “chamuscado” devido à busca do sensacionalismo, exemplificando com a queda de um suposto canadair, que fez com que, segundo a jornalista, se criasse uma revolta nas redações em busca de audiências e de ainda mais desastre, ou de Sebastião Pereira, aparente jornalista correspondente do jornal espanhol El Mundo que afirmou que iria ser o incêndio de Pedrogão a derrubar o governo socialista de António Costa e… que não existiu.
“Onde está a investigação jornalística ao tema dos fogos florestais fora dos períodos em que não há fogos? Onde os trabalhos aprofundados sobre a ordenação do território? Porque só agora repararam que as árvores da EN 236 estavam demasiado próximas da beira da estrada? E porque só agora se sabe que o SIRESP não serve? Onde está o escrutínio do cumprimento da legislação existente e das razões pelas quais a que está no Parlamento aguarda há meses ser discutida e aprovada?”
Estrela Serrano – jornalista do Jornal Tornado

Joaquim Fidalgo, professor de Jornalismo na Universidade do Minho, em Braga, e ex-provedor do leitor no jornal Público, não desvaloriza o trabalho de um jornalista num cenário como o de um incêndio. No entanto, acrescenta igualmente que apesar de mais fácil culpar quem está no terreno, como aconteceu na situação de Judite de Sousa, os erros não são atribuídos a mais ninguém.
“O que muitas vezes acontece é que as pessoas que estão nas régies e nas redações acabam por ser os verdadeiros responsáveis por alguns exageros”.
Joaquim Fidalgo
Relembra que é necessária a existência de respeito pela dor e sentimentos das pessoas. O ser jornalista não quer dizer que se pode entrar pelas casas das pessoas adentro ou nas vidas delas como se se fosse o dono das mesmas. Para o professor, esse mesmo nível de respeito também se estende aos profissionais.
Suzana Cavaco é professora de Ética e Deontologia Jornalística na Universidade do Porto e não aponta falhas redundantes na cobertura jornalística de Pedrogão Grande. Mas reconhece exceções à regra que não menciona. Entre essas falhas, uma delas partiu do questionar aos familiares das vítimas como estes se sentiam. Foi dos mais graves na opinião da professora.
“Essa pergunta pode ser pornográfica, do ponto de vista sentimental. Qualquer jornalista com empatia, pode imaginar o que a pessoa sente. Não precisa de fazer essa pergunta”.
Suzana Cavaco
Num incêndio desta dimensão e com as consequências que teve, Suzana reforçou “a linha ténue entre o interesse público e o voyeurismo” que pode ser combatido através da seleção e do enquadramento de conteúdos e de imagens transmitidas nos órgãos de comunicação social.
“Eu questiono se faz sentido utilizar tanta labareda, porque os pirómanos focam a sua atenção nas labaredas. Não sei até que ponto essa labareda é interesse público”.
Suzana Cavaco
No que toca à emoção e o sentimento que alguns profissionais, por vezes, transparecem num cenário como o de Pedrogão Grande, a docente é sucinta e assume que é muito fácil um jornalista emocionar-se e não perceber a linha ténue entre o interesse público e o voyeurismo. Mas não esquece que um jornalista é também um ser humano.
Mas, no final de contas, é mesmo isto. Um jornalista, por mais profissional que seja, nunca deixará de ser um ser humano. Para além do jornalista, existe sempre o homem e a mulher, nunca um robô. No entanto, e por muito difícil que seja essa gestão, tanto no jornalismo como no quotidiano, existem regras a cumprir.
O espectador e o leitor podem ser sensíveis mas o jornalista também o é, porque, apesar de profissional, não deixa de ser humano. Só são pedidas duas coisas: ética e honra ao jornalismo.