Cobertura Jornalística de Tragédias em Portugal

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Cobertura Jornalística de Tragédias em Portugal

Nasceu em Cabo Verde, faleceu em Portugal – a história de Giovani Rodrigues

Valdmiro Quitamba

Giovani Rodrigues foi encontrado ferido numa rua de Bragança no dia 21 de dezembro e morreu 10 dias depois, no hospital. O caso levantou várias questões sobre o racismo e a forma como este é transmitido nos meios de comunicação social.

Foto: Inforpress/Lusa

Luís Giovani, de 21 anos, era caloiro do curso de Design de Jogos Digitais na Escola Superior de Comunicação, Administração e Turismo de Mirandela, faleceu no dia 31 de dezembro de 2019.

No passado dia 16 de janeiro de 2020 foi procedido à detenção de cinco homens, com idades entre os 22 e os 35 anos. Recentemente foram detidos mais três homens pela morte do jovem Giovani, em Bragança, os suspeitos encontram-se em prisão preventiva.  

Enumeração de alguns órgãos de comunicação que divulgaram ou noticiaram o facto

 Vários meios de comunicação divulgaram ou noticiaram o facto, foi um assunto de debate em media nacional e internacional.

Como espelhar a realidade

A mais antiga das teorias do Jornalismo é a Teoria do Espelho, desenvolvida a partir  de 1850. Ela surgiu no contexto das profundas mudanças que se processavam na imprensa dos Estados Unidos, com o desenvolvimento de uma rentável indústria noticiosa de massas.

O jornalista tem que ser mediador desinteressado, um observador isento, imparcial, que descreve objetivamente os fatos. O princípio básico seria a separação de fatos e opiniões. Pregava-se que a palavra poderia refletir a realidade, assim como a fotografia.  O Jornalismo usa métodos científicos que evitam a subjetividade.

É usada, com a diferenciação entre a informação e opinião, é mesmo uma estratégia de atingir mais leitores, sem segmentação de públicos, apenas relatar os factos tal e qual como eles são. Também usada como um uso estratégico, com vista à finalidade de legitimação da Acão do jornalismo. 

O jornalista deve sempre tratar o seu trabalho com muita objetividade e sempre dar atenção à verdade porque isso faz com o que o seu trabalho seja credível. Contudo, as fontes podem ser enganosas e os documentos podem estar adulterados. Nem todos os elementos encontrados na montagem da notícia podem estar absolutamente corretos, por isso tem de haver sempre uma verificação rigorosa dos factos. 

De acordo com Nelson Traquina o jornalismo pode ser definido como a vida que é contada em breves passagens pelos jornais diários em editoriais que vão da sociedade, a economia, a ciência, à educação.  Para Traquina a teoria do espelho, que se deveu na tentativa de definir o conceito de jornalismo, parte do princípio da total objetividade acerca da realidade procurada pelo jornalismo.

Traquina retratava o jornalismo como um espelho da realidade: “O meu trabalho é comunicar factos: as minhas instruções não permitem qualquer tipo de comentário sobre factos que sejam eles quais forem”. 

Nem sempre a realidade é espelhada da melhor forma, há imensos casos em que a mesma não é passada como a teoria do espelho e Nelson Traquina explica. Os factos muitas vezes são adulterados. 

Neste caso da morte do jovem cabo-verdiano, em Bragança, a realidade foi retratada de forma diferente. Muitos não espelharam o caso tal e qual como foi, fizeram juízos de valor e opinião, enquanto um jornalista, simplesmente, deve passar o que realmente aconteceu, há pouca clareza na forma como é passada na comunicação social. Por ser em Bragança, por não ser português é tratado de forma distinta. A inexistência de dúvidas em relação ao acontecimento é diretamente proporcional as hipóteses dele passar a notícia, o que neste caso passa a notícia é forma barbara como aconteceu.  

O Diário de notícias noticiou que o jovem estava alcoolizado caído na rua e que foi agredido por vários homens a saída de uma discoteca, não houve opinião, houve simplesmente um relato da notícia, que chegou assim as autoridades. No correio da manha, não retratam o caso como um “espelho,” falaram da parte polémica do caso e das dúvidas que existia no caso. Com tudo isto, percebemos que o sensacional tem mais vantagens do que explicar a realidade porque é de mais fácil interpretação. 

Neste caso esta percebe-se bem que a realidade é bem distinta que não há verificação dos factos porque as notícias são dadas de forma bastante diferente. Não pode haver credibilidade porque não se sabe o que é verdade. 

Com este caso também percebemos os valores de notícia, em que percebemos o momento do acontecimento. O acontecimento tem maior probabilidade de ser notícia se as suas características temporais servirem necessidades do meio. No caso da televisão o privilégio é sempre dado aos acontecimentos de última hora. 

Com isto, formamos um autorretrato na ideologia, jornalista defende epistemologia com a realidade que impeça quaisquer transgressões de uma fronteira indubitável entre realidade e ficção. Estão assentes na crença social de que as notícias refletem a realidade, de que os jornalistas são imparciais devido ao respeito pelas normas profissionais, sendo que reproduzem o acontecimento noticioso. 

Código Deontológico dos Jornalistas

  • 1. O jornalista deve relatar os factos com rigor e exatidão e interpretá-los com honestidade. Os factos devem ser comprovados, ouvindo as partes com interesses atendíveis no caso. A distinção entre notícia e opinião deve ficar bem clara aos olhos do público.
  • 9. O jornalista deve rejeitar o tratamento discriminatório das pessoas em função da ascendência, cor, etnia, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica, condição social, idade, sexo, género ou orientação sexual.
  • 11. O jornalista deve recusar funções, tarefas e benefícios suscetíveis de comprometer o seu estatuto de independência e a sua integridade profissional. O jornalista não deve valer-se da sua condição profissional para noticiar assuntos em que tenha interesse.
Marcha pela justiça a Giovani Rodrigues. Foto: Pedro Sarmento Costa – Lusa

Carla Cerqueira, especialista em Psicologia da Comunicação e Professora universitária

“O tratamento noticioso deste caso variou de acordo com a política editorial dos orgãos de comunicação. Por um lado, é importante perceber que este caso entrou na agenda jornalística em vários órgãos, mas o enquadramento dado foi diferente (ter em atenção o título para verificar quem é o detentor da ação). Além disso, são de realçar as fontes noticiosas escolhidas (a quem se deu voz e de que forma)”

Rui Pereira, doutorado em Sociologia da Comunicação e da Informação, Professor universitário e Ex Jornalista

Sobre o assunto diz o seguinte:

“A respeito do caso do jovem estudante, recordo-me que mediaram vários dias entre os factos da agressão e a morte, no hospital. Ou seja, inicialmente, o assunto foi tomado como um recontro banal entre jovens, numa saída nocturna, em ambiente de consumo de álcool. Só a morte do jovem vem por um lado expressar a especial gravidade dos factos, tornando-os notórios para a imprensa. Seguiu-se-lhe, tanto quanto recordo, uma série de acções de rua, por ativistas anti-racistas, bem como o embaixador de Cabo Verde em Lisboa chegou a deslocar-se ao local dos acontecimentos, reunindo-se com autoridades académicas e, creio, que policiais também. 

Até aqui, nada me parece extraordinário. A relativa banalidade do incidente (como há muitos outros, entre jovens etilizados nas imediações de estabelecimentos de diversão nocturna) para a imprensa parece-me justificada. Bem como o seu interesse pelo caso, aquando da morte do jovem hospitalizado. As autoridades policiais avançaram uma explicação para os factos, sublinhando não se tratar de um crime de corte étnico-racial. Esta explicação, a ser verdadeira -o processo de investigação confirmá-la-á ou não- não desdramatiza a morte do jovem, mas impede, a meu ver, que ela seja tematizada como um caso racial. Olhando as notícias que me submete, também me parece que não houve uma incidência racista ou, sequer, racial na redacção de qualquer delas. A alusão à nacionalidade cabo-verdiana da vítima não me parece uma alusão racialista. Existe, em Portugal, de há longas décadas um grande conjunto de imigrantes de Cabo-Verde. Seria, porventura, a mesma coisa se, num incidente homólogo em Cabo Verde com uma vítima portuguesa, a imprensa local mencionasse a sua nacionalidade, isto é, não me pareceria discriminatório.

Creio, indo à sua segunda questão, que o racismo é algo de demasiado sério para poder ser demagogicamente trivializado. O combate contra o racismo, como contra outras enfermidades sociais profundas, é ameaçado pela sua dissimulação, pela omissão silenciosa, seguramente. Mas também é ameaçado pelo seu falso alardeamento, pelo aproveitamento político que se faça em nome da luta anti-racista. O racismo é um fenómeno singular, de legitimação de formas iníquas de dominação, de poder e de exploração de seres humanos desprovidos de poder, por outros que o têm. Esta exploração intensificada existe em função de questões raciais, mas também sexuais e sócio-económicas, em sociedades estruturadas em torno da exploração e da desigualdade de direitos e oportunidades. Pior do que ser negro, é ser negro pobre e pior do que isso é ser negra e pobre. As ciências sociais vêm desenvolvendo uma corrente de estudos importante, a Interseccionalidade, que examina, nesta linha, estes fenómenos de dominação. O que quero dizer com isso é que o combate a uma forma de discriminação implica o combate a todas as suas outras formas e, no limite, implica a censura dos poderes vigentes em sociedades de exploração intensificada. Desenvolver uma consciência anti-racista é um trabalho difícil, complexo, fino e persistente que não deve enganar-se acerca dos seus alvos e objectivos. Vejo com dificuldade que a retoricização eufemizada da vida social possa contribuir, com efectividade, para esse combate, que é um combate contra um tipo e uma estrutura muito ampla de dominação, na qual estão integrados os próprios media.

O trabalho anti-racista começa nas escolas, entre as crianças que como sabemos são espontaneamente não racistas. É essa natureza espontânea que cumpre manter e desenvolver, nas infelizmente ainda várias gerações que serão necessárias para acabar com este flagelo. Como com outros que nos submergem. Sem demagogia, sem eufemismos, sem folclores. Programas educativos efectivos, que vão ao encontro da espontaneidade com que crianças de qualquer raça ou etnia brincam umas com as outras. Ensine-se os adultos a olhar para isso. Mostre-se como entre as crianças estas coisas não existem. E aprendamos com elas.” 

Artigo de opinião

 A jornalista Fernanda Câncio, faz uma reflexão profunda em torno do caso e levanta várias questões

Com base numa análise cautelosa e crítica deste fenómeno mediático, surgem diversas questões relativamente ao que compreendemos ser os media e a atividade jornalística.

Isto porque, este evento traz para a luz características e atitudes jornalísticas que demonstram os traços negativos dos meios de comunicação em massa, que por sua vez têm implicações deteriorantes para uma sociedade democrática, que precisa de meios que permitam a livre circulação de informação (relevante), transparente e responsável, para o seu bom funcionamento.

Porém, este potencial dos media (de sustentar uma sociedade livre, democrática e responsável) é comprometido quando os jornalistas se focam no sensacionalismo.